![]() |
A arte nipônica
Educação e doutrinamentoA mulher que se tornava gueixa não o fazia da noite para o dia. Assim como estudamos para exercer a engenharia, a medicina, a licenciatura e todas as demais profissões, "trabalhar" como gueixa exigia toda uma preparação que se iniciava desde a infância. Aos seis anos de idade, as meninas escolhidas eram enviadas aos lugares chamados de oky-ias ("casas das gueixas"). Lá, elas recebiam um novo nome, que seria utilizado durante o exercício de sua profissão e fora dele. Transformavam-se em maikos ("aprendizes"). A okasan (proprietária do oky-ia) tornava-se a "mãe" da gueixa, e as outras gueixas eram consideradas suas irmãs. Uma gueixa mais experiente era considerada como a "irmã mais velha", e podia "apadrinhar" uma aprendiz, auxiliando-a durante sua educação e a conquista de seus clientes. Durante cinco anos, diariamente, as garotas aprendem a tocar instrumentos tradicionais, realizar tarefas domésticas, danças, artes, pintura e costura, além de outras tarefas e habilidades. Elas devem alcançar um nível de perfeição, e descansam apenas dois dias por mês. A disciplina era rígida, e o oky-ia funcionava como um verdadeiro colégio interno. Deveriam aprender também a fazer chá delicioso e servi-lo de modo delicado, andar graciosamente usando pequenos tamancos e se portar de modo refinado. Os pés das pequenas aprendizes eram, desde cedo, apertados e comprimidos para limitar seu crescimento. Era obrigação para uma boa gueixa ter os pés minúsculos. Pés grandes eram sinônimo de desarmonia e falta de delicadeza.
Profissão e atividades
O sexo, de fato, era algo íntimo entre a gueixa e seus clientes mais próximos. Ela não era, inclusive, obrigada a se deitar com um homem apenas por receber seu pagamento. Nesse ponto, elas tinham certa liberdade em escolher com que homens manteriam relações sexuais. A principal atividade das gueixas era oferecer acompanhamento, diversão e distração para homens que, em geral, eram muito ricos e em suas reuniões apreciavam a presença destas mulheres refinadas, para descontrair o ambiente e os presentes. Muito raramente as conversas envolviam assuntos sexuais explícitos. Tudo deveria ser implícito, velado, misterioso e subliminar. Gueixas muitas vezes tornavam-se amantes de homens importantes, tendo filhos com eles. Recebiam bens e heranças como se fossem uma espécie de "esposas", o que fazia com que um dos objetivos de vida destas mulheres fosse conseguir a gravidez através de um homem de renome. Mas elas não se casavam, ou muito raramente se casavam oficialmente. A maioria delas eram órfãs ou filhas "vendidas" ou entregues por famílias com poucas condições financeiras. A vida como uma gueixa não era vista como um tipo de existência de exploração: elas eram bem vistas pela sociedade, tinham certo respeito e conviviam com pessoas das classes altas, conseguiam se alimentar, morar e se vestir bem e adquirir um certo renome, o que "compensava" a dura doutrinação e rigidez vivida na infância. Elas realizavam também apresentações artísticas em espaços específicos para isso. Um detalhe diferenciava as gueixas das prostitutas comuns: elas amarravam seus quimonos dando o laço nas costas, enquanto as prostitutas comuns faziam o laço na frente de seu corpo. Inclusive, chamar uma gueixa de prostituta era considerado por elas como uma ofensa grave.Vestimentas
Elas utilizavam muitas joias e ornamentos, mas a principal peça do vestuário era o quimono, um vestido delicado todo feito em seda e com estampas geralmente florais, ou de animais típicos do Japão. Um quimono podia ser vendido a mais de U$10.000 dólares. Quando a gueixa se formava, tornava-se uma geiko. Recebia, então, alguns quimonos. Todos os custos, desde a sua educação até as roupas que recebia, deveriam ser pagos pela gueixa enquanto ela trabalhava. Entretanto, a profissão era lucrativa: elas chegavam a cobrar U$6.000 por uma sessão que, em média, durava duas horas, e era marcada através de um incenso queimado em um recipiente especial, que levava praticamente este tempo para ser consumido. Amarravam o quimono usando o obi, um cinturão. Recebiam joias, adereços e enfeites de seus clientes mais abastados, não como pagamento, mas como presentes à parte. O uso destas joias e adereços era símbolo do sucesso profissional e social das gueixas, e um indício de que elas frequentavam os círculos sociais mais abastados. Assim, elas conquistavam mais respeito e status social e pessoal.Cultura milenar
Ainda existem gueixas no Japão. Entretanto, sua vida não é a mesma de suas antepassadas. A rigidez dos colégios para os quais elas são enviadas (não mais aos 6 anos, mas sim aos 15) permanece, mas elas não exercitam atividades como aquelas exercidas anteriormente. São apenas um modo de manter viva a estética e a cultura das gueixas. A última gueixa "original" chamava-se Niharu Nakamura, falecida em 2004, considerada como a última profissional que viveu no período anterior à forçada ocidentalização do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Em 1900, havia cerca de 25.000 gueixas no Japão. Atualmente, existem pouco mais de mil delas.
Significado e legado
As gueixas não devem ser confundidas com simples prostitutas. As atividades que elas exerciam iam muito além do sexo e, na verdade, o número de clientes com os quais se relacionavam de modo íntimo era muito pequeno e seleto. A gueixa era uma mulher refinada, com uma extensa leitura, uma ótima alfabetização, capacidade de falar sobre política, negócios e filosofia, recitar poemas inteiros, interpretar peças teatrais e realizar coreografias e danças, fazer e servir chá, contar piadas e entreter convidados. A guiexa era uma "esposa" para muitos homens solteiros, dando atenção a seus clientes que ia muito além de qualquer conotação sexual. Inúmeros homens pagavam quantias exorbitantes apenas por sua companhia e seus talentos, sem haver qualquer relação sexual física entre ambos. Se não podemos considerar a vida das gueixas como vergonhosa, ela também estava longe de ser fácil. Muitas delas não conheciam ou não possuíam pai e mãe, praticamente não tinham infância e já cresciam endividadas. As donas das casas eram extremamente rígidas e, durante os primeiros anos de suas profissões, lucravam com seus esforços. A gueixa era praticamente uma escrava antes de sua emancipação. Estas mulheres viviam muitas dores e privações, e, mesmo assim, tornavam-se obras de arte refinadas e capazes de conter em seus pequenos pés a imensidão de milênios de cultura japonesa.


0 comentários