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Marco Histórico
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Partisans soviéticos. Estes homens desempenharam um papel decisivo no recuo alemão e na libertação soviética.

Quando observamos conflitos mundiais, damos total atenção aos exércitos oficiais. As cenas das unidades Panzer alemãs, rapidamente conquistando toda a Europa; o Exército Vermelho, empurrando o Eixo para Oeste; os soldados norte-americanos desembarcando em Omaha, no famoso Dia D; a gloriosa batalha de Berlim; enfim, todas essas cenas invadem nosso imaginário. Mas nós não nos lembramos muito bem, nem os livros de História de nossas escolas dão a devida atenção aos guerreiros e combatentes anônimos que fizeram a diferença nos bastidores da Segunda Guerra mundial. Esses homens e mulheres (e até mesmo crianças) eram os guerrilheiros do povo, os Partisans.

Camponeses, operários, criminosos e rejeitados
http://collections.yadvashem.org/photosarchive/s637-469/8254308990593488248.jpg
Partisans poloneses. Ao mesmo tempo, eles lutaram contra os invasores alemães e soviéticos.

Os Partisans, como são popularmente conhecidos, eram grupos de combate formados por pessoas do povo, sem pertencer aos quadros oficiais das forças armadas. Atuavam, em geral, nas áreas invadidas, combatendo os invasores. Durante a Segunda Guerra mundial, tiveram ação especial nos países invadidos pelas potências do Eixo. Assim, temos partisans italianos lutando contra o regime de Mussolini, partisans de toda a Europa lutando contra os nazistas, partisans russos lutando contra os invasores e até mesmo partisans franceses, chineses (lutando contra os japoneses) e das mais variadas nacionalidades, inclusive árabes e africanos. Esses homens e mulheres, em geral, eram pessoas do campo, ou operários. Mas nem só de trabalhadores eram feitos os grupos partisans: muitos criminosos recebiam perdão por seus crimes em troca de lutar contra o inimigo; outros, condenados pelos invasores, conseguiam fugir e lutavam como forma de auto defesa. Os motivos que levavam alguém a se tornar um partisan eram variados, mas o objetivo final era um só: expulsar os invasores e derrubar um regime.
http://www.landofsongs.com/wp-content/uploads/2012/07/photo-full.jpg
Partisans dos Estados bálticos.
Recrutamento, treino e preparação
http://www.hannaharendtcenter.org/wp-content/uploads/2014/06/15.jpg
Partisans franceses recebendo treinamento. Repare no garoto, bem jovem, em primeiro plano. Crianças também lutavam.
As unidades de guerrilha eram feitas de modo muito rápido. Geralmente, algum militar regular ou algum guerrilheiro mais experiente convocavam as pessoas de certa região para se voluntariar ao serviço de guerra. Não havia distinção: homens e mulheres podiam participar. Algumas vezes, até mesmo crianças se uniam, atuando como mensageiras, ajudantes e realizando algumas tarefas de espionagem (justamente por serem menos suspeitas que os adultos) e manutenção em equipamentos e veículos. Eles aprendiam, de forma muito rápida, a atirar, manusear e manter armas e equipamentos. Alguns aprendiam a usar granadas e bombas, a fabricar armas caseiras (como explosivos e coquetéis Molotov) e armadilhas (como minas, explosivos e detonações), e outros aprendiam até mesmo a pilotar veículos como tanques, aviões, bombardeios e outros armamentos. Apesar de não receber um treinamento extensivo como os soldados regulares, os partisans eram aptos a realizar diversas atividades operacionais tão bem quanto os militares regulares.
http://thevelvetrocket.files.wordpress.com/2012/06/partisans-italy.jpeg
Insurgentes italianos. Os rebeldes na Itália foram decisivos para a queda de Mussolini.

http://www.flamesofwar.com/Portals/0/all_images/Historical/Partisans/Partisan-10.jpg
Partisans explodindo um trilho.
Sabotagem, problemas e distração

Os partisans, diferente das tropas regulares, não combatiam na linha de frente nem atuavam de modo convencional. Eles operavam nos bastidores, pela retaguarda. O principal objetivo dos partisans era distrair os inimigos criando vários problemas e preocupações para os invasores, fazendo com que perdessem tempo e não se concentrassem do modo necessário na linha de frente. Isso incluía destruir comunicações, destruir linhas férreas, sabotar veículos e explodir depósitos de armas; eliminar alvos chave, dispersar tropas inimigas em diversas linhas e atacar pequenas guarnições, além de inúmeros outros trabalhos. 


Nem só de explosões viverá um partisan

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/sh/0/04/Partizanke_%C4%8Cetvrte_proleterske_brigade.jpg
Partisans mulheres. Elas também lutaram bravamente.
Os partisans não eram meros sabotadores. Alguns deles eram exímios espiões e interceptadores, capazes de se infiltrar (até mesmo usando uniformes dos inimigos usando identidades falsas) em bases inimigas, coletar informações, interceptar transmissões, decodificar mensagens secretas e descobrir datas, locais e horários de operações, bem como números de tropas, veículos e armamentos inimigos. Os partisans, assim, formavam uma extensa rede de espionagem e contraespionagem, com a vantagem de não serem facilmente identificados caso fossem mortos ou capturados, já que seus nomes não constavam nas listas oficiais das forças armadas que os treinavam.





 Procurado, vivo ou morto
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Partisans executados por enforcamento. Na placa, em alemão, os dizeres: "Fotografias proibidas!".

Um partisan enfrentava inúmeros perigos. Além do constante risco de morte, podiam ser capturados. Na melhor das hipóteses, seriam torturados e interrogados durante dias a fio, antes de morrerem. As execuções eram, geralmente, feitas através de fuzilamento, mas poderiam envolver rituais mais violentos, como mutilação, desmembramento e outras torturas. Muitos eram enforcados e expostos a campo aberto, como advertência àqueles que ousassem se arriscar nessas atividades de guerrilha. Os partisans eram mais odiados do que os soldados regulares, pois agiam com o elemento surpresa, o que irritava ainda mais seus perseguidores. Nos territórios ocupados pelos nazistas, por exemplo, era comum a prática de oferecer recompensas em dinheiro por qualquer denúncia que levasse à captura de partisans. Alguns guerrilheiros recebiam perdão por suas ações caso denunciassem seus companheiros.

Heróis anônimos
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Partisans lituanos.

Alguns partisans tornaram-se notoriamente famosos, mas a maioria deles viveu e morreu no anonimato. Na História oficial, contada pelos vencedores, apenas os grandes generais e as ações das tropas regulares recebem atenção e crédito, e os guerreiros e guerreiras silenciosos pouco são lembrados. Mas não devemos nos enganar: sem a ajuda desses grupos, certamente a vitória dos Aliados teria sido muito mais difícil. Essas pessoas simples, pobres e muitas vezes até mesmo analfabetas, ajudaram de um modo fantástico realizando inúmeras operações e atividades que não somente distraíam os inimigos, mas causavam baixas e prejuízos consideráveis aos mesmos. Os povos que foram libertos devem sua liberdade a estes guerreiros anônimos tanto quanto aos generais e soldados regulares.

http://wpmedia.ottawacitizen.com/2014/05/franz-von-werra2.jpg?w=640
Franz e seu leãozinho de estimação, Simba, o mascote da divisão aérea de Franz.

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Franz voando com Simba.
Um dos mais habilidosos pilotos alemães combatente da Segunda Guerra Mundial, o homem de hábitos exóticos chamado Franz Von Werra tornou-se uma grande dor de cabeça para os britânicos e um grande orgulho para a Luftwaffe. Franz viveu uma verdadeira aventura: foi abatido pelos britânicos, sobreviveu, foi capturado e mantido em um campo de aprisionamento canadense, conseguiu fugir e retornar à Alemanha, voltando ao combate.

Vida e origens

Franz nasceu assim que a Primeira Guerra Mundial despontou pela Europa. Nascido de uma família com títulos de nobreza, porém empobrecida, em 13 de Julho de 1914 na cidade de Leuk, na região de Berner Oberland, na Suíça, logo se tornaria um dos grandes pilotos alemães. De seu pai, Leo Von Werra, ele herdou o título de barão. Alguns de seus parentes mais bem sucedidos cuidariam dele e de seus irmãos, dando a Franz uma boa formação educacional.

Início da carreira
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Franz von Werra na cabine de seu avião BF 109 F-4.
Franz se une à Luftwaffe, a força aérea alemã, em 1936. Em 1938, ele foi promovido a tenente. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele estava servindo na unidade militar Jagdeschwader 3, na invasão à França. Logo ele se tornou um ótimo oficial, promovido a ajudante do II Gruppe Jagdeschwader 3.

Hábitos e personalidade
http://www.ww2incolor.com/d/738340-2/photo-1
Franz brincando com Simba.

Franz era descrito como um "homem de atitude aristocrática". Provavelmente, sua postura muitas vezes refinada foi o fruto de uma educação elevada. Franz possuía um filhote de leão como mascote, o qual ele batizou de Simba, mantendo o animalzinho como mascote de sua unidade aérea.

Primeiras vitórias
Von Werra conquistou suas quatro primeiras vitórias durante a Batalha da França, em maio de 1940. Ele abateu um avião Hawker Hurricane em 20 de Maio de 1940; dois aviões bombardeios Breguet 690 no dia 22 e um avião Potez 630 próximo a Cambrai, no mesmo dia. Durante a Batalha da Inglaterra, em 25 de Agosto, ele derrubou um avião Spitfire próximo à cidade de Rochester, e três aviões Hurricane. Isso significava muito: abater inimigos em solo inimigo era algo extremamente arriscado. E num desses riscos Franz acabaria por ser capturado.

Abatido pelos britânicos
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Britânicos verificam o avião de Franz, abatido próximo a Kent.
No dia 5 de Setembro de 1940, o avião de Franz foi abatido na Inglaterra. Os indícios históricos nos levam a crer que Franz foi abatido pelo tenente australiano Pat Hughes. Ele sobreviveu à queda e foi capturado pelos ingleses próximo à cidade de Kent. Foi preso em um quartel na cidade de Maidstone, guarnecido pelo Regimento Real de West Kent da Rainha, uma unidade britânica de elite. Franz realizou trabalhos forçados durante sua prisão. Depois, foi transferido para Herfordshire, e, posteriormente, para o Distrito de Prisioneiros de Guerra de Londres. Após isso, foi transferido para um centro de detenção de nível máximo próximo a Windermere.

Tentativas de fuga
Franz tentou fugir diversas vezes. Uma delas foi em 7 de Outubro, onde ele tentou fugir durante uma caminhada diária supervisionada. Ajudado por outros alemães, ele conseguiu se esconder em uma pedra, conseguindo escapar. Ele ficou escondido dentro de uma hoggarth, uma construção rústica de pedras para guardar alimentos para ovelhas. Foi encontrado, mas conseguiu fugir à noite. No dia 12 de Outubro ele foi novamente encontrado e capturado, punido com 21 dias de reclusão na solitária. Depois, foi transferido para o campo prisional número 10, em Swanwick.

Tentando escapar com um disfarce
Transferido mais uma vez, agora para o campo prisional número 13, em Hayes, Franz se uniu a um grupo de prisioneiros alemães chamados de Swanwick Tiefbau (Escavadores de Swanwick). Junto ao grupo, ele cavou um túnel durante um mês inteiro. No dia 17 de Dezembro, o túnel foi concluído. Franz e outros quatro prisioneiros do grupo conseguiram fugir em 20 de Dezembro , e arranjaram passaportes e identidades falsas. Logo os guardas notaram a movimentação e todos os membros do grupo foram capturados, exceto Franz. Conseguindo um uniforme, ele se fez passar pelo capitão Van Lott, um piloto da Força Aérea Holandesa. Conseguiu carona em um trem, mentindo ao maquinista dizendo-se um piloto abatido que precisava chegar a uma unidade da Real Força Aérea mais próxima. Ao chegar na estação de trem de Codnor Park, ele chegou a ser interrogado por policiais, mas conseguiu convencê-los de que falava a verdade. Ele foi transportado até o aeródromo da Real Força Aérea em Hucknall, perto de Nottingham. Um líder de esquadrão, chamado Boniface, pediu suas credenciais. Ele disse que era lotado em Dyce. Enquanto Boniface foi checar as informações, ele conseguiu entrar em um avião, mas foi reconhecido antes de conseguir decolar e enviado para a prisão de Hayes. Em Janeiro de 1941, ele é enviado a uma prisão militar no Canadá. Enquanto era transferido para a prisão em Ontario, conseguiu escapar com outros sete prisioneiros, pulando do trem. Mas apenas ele conseguiu fugir.

Fugindo para os EUA
Franz alcançou o rio  Saint Lawrence e conseguiu atravessá-lo, passando pela fronteira dos EUA, chegando à cidade fronteiriça de Ogdensburg, no estado de New York. Logo ele se entregou espontaneamente à polícia norte-americana, sendo preso pelas leis de imigração. Por conta disso, ele tinha o direito de contactar alguma autoridade alemã para sua extradição. Franz contactou um cônsul alemão que pagou sua fiança. Agora, mais uma vez, ele estava em liberdade.

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Poster do livro inspirado na história de Franz.
Minutos de Fama
Franz aproveitou para fazer uma fama pessoal. Contactou vários jornalistas norte-americanos e relatou sua história fantástica (claro, aumentando um pouco os fatos). Existem vários indícios em jornais noticiando as aventuras de Franz. Acontece que todo esse barulho despertou a atenção das autoridades canadenses, que começaram a negociar sua extradição com os americanos para o Canadá.

Fuga para o México
Enquanto as autoridades americanas e canadenses perdiam tempo com questões burocráticas, Franz entrou novamente em contato com um diplomata alemão que o ajudou a fugir pela fronteira com o México. Agora, Franz estava fora do alcance das autoridades americanas e canadenses.

Franz no Rio de Janeiro
Após passar algum tempo no México, Franz viajou para o Brasil, passando um tempo na cidade do Rio de Janeiro, o mais famoso cartão postal brasileiro. Na época, as relações entre o Brasil de Vargas e as potências do Eixo eram mais amigáveis, e Franz certamente não encontrou nenhum tipo de problema em permanecer no país tropical. Após sair do Brasil, Franz volta à Europa. Primeiro, chega à Barcelona, na Espanha. Depois, vai para a Itália, na cidade de Roma. 
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh50XAiGxLrQWzS8CHC5QOkjycjs9oTkH6cPbfSFp-mhItHSCgZpd-IwfATARf9VRngx4STdo9oqI87QRcbugLplqHIhjBPdoZ6yhlxFEAcmdpha7zy-OP2kuHCYEtH_wiafUFYW1Sn9g/s1600/img227.jpg
Foto de um bondinho do Rio de Janeiro com foliões prontos para o carnaval, no ano de 1941 (o mesmo ano em que Franz passou pelo Rio).


De volta à Alemanha
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Franz e Simba na cabine de um avião BF 109 F-4.
No dia 18 de Abril de 1941, Franz chega à Alemanha. É recepcionado como herói, e recebe, do próprio Hitler em pessoa, a condecoração da Cruz dos Cavaleiros da Cruz de Ferro. Ele participou também de um programa de treinamento que ensinava pilotos alemães a agir de forma adequada caso fossem abatidos e capturados. As experiências de Franz ajudaram os alemães com informações importantes sobre os métodos de interrogatório britânicos, as instalações militares desses países e seus aspectos militares em geral.

De volta à ação
Franz retornou à Luftwaffe e passou a combater no front russo. Ele obteve um total de 21 vitórias apenas durante o mês de Julho de 1941. Em Agosto, ele retornou à Alemanha para experimentar o novo avião BF 109F-4. Passou a combater em Katwijk, na Holanda.

http://spitfiresite.com/wp-content/uploads/2010/09/franz-von-werra-press.jpg
Franz em uma capa de revista alemã, com o leãozinho
Sinmba.
Morte e legado
No dia 25 de Outubro de 1941, Franz realizava um voo operacional de testes em seu novo avião BF 109F-4 quando um defeito no motor o fez perder o controle da aeronave. Ele não conseguiu recuperar o controle, e acabou caindo no mar ao norte da cidade de Vlissingen. Foi dado como morto, e seu corpo jamais foi encontrado. Franz não foi o mais experiente e bem sucedido piloto alemão. Vários outros pilotos tiveram desempenhos melhores do que o dele. Sua fama é justamente por conta de sua fantástica fuga e pelo fato de ter sido ele o único alemão abatido, capturado, preso e que conseguiu fugir e retornar vivo à Alemanha. Franz deixou uma história de combate, fidelidade a seus companheiros e carinho ao seu maior companheiro de voos, seu leãozinho Simba. A determinação de Franz fez com que ele sobrevivesse à duras privações nas diversas prisões por onde passou, e sua morte prematura tornou-o uma figura ainda mais emblemática.






Referências:
Pegasus Archive
https://psicologianicsaude.files.wordpress.com/2013/04/02.png
Fotos tiradas do ambiente interno do Hospital Colônia de Barbacena. Estima-se que entre 1930 a 1980 cerca de 60.000 pessoas morreram na instituição.

Certos capítulos da História nacional são praticamente desconhecidos. A palavra "genocídio" nos remete sempre a crimes estrangeiros, mas poucos de nós sabemos dos atos bárbaros cometidos no Brasil. Houve um verdadeiro genocídio brasileiro, um genocídio silencioso, quieto e misterioso, e esse genocídio é tema do artigo deste final de semana.

O Hospital Colônia
http://www.ccs.saude.gov.br/vpc/images/barbacena03.jpg
Foto da fachada do Hospital Colônia de Barbacena. Por trás desta bela arquitetura se escondiam terríveis torturas.

Criado pelo governo estadual de Minas Gerais em 1903, o Hospital Colônia, localizado na pequena cidade de Barbacena, inicialmente tinha como objetivo o tratamento de pacientes com tuberculose. Posteriormente, passou a servir como local de recolhimento de pessoas com problemas e distúrbios mentais. Com duzentos leitos inicialmente, atingiu a marca de cinco mil internos em 1961. O hospital, em sua época, era um dos maiores hospícios do país.

Hospício para normais
Estima-se que cerca de 70% daqueles que foram internados no Hospital Colônia não possuíam qualquer tipo de transtorno mental. O local servia para uma espécie de "eugenia" brasileira, onde alcoólatras, prostitutas, homossexuais, idosos, adolescentes grávidas, mendigos e outros tipos de pessoas eram submetidos a uma verdadeira prisão.

Masmorra e sofrimento
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Os internos dormiam em colchões forrados com feno ou capim, submetidos a diversas torturas.
Adotando medidas pseudo terapêuticas típicas do século XVIII, os "tratamentos" consistiam em castigos físicos, tortura, privação de sono e de comida, reclusão total e diversos atos de violência física e psicológica. Estimativas apontam que cerca de 60.000 pessoas morreram apenas durante 1930 e 1980. Este número pode ser bem maior, se avaliarmos a data de abertura do "hospital". 

Comércio de corpos e órgãos
Os mortos eram vendidos para diversas faculdades do país. Aqueles que morrem declarados como indigentes podem ser utilizados para estudos de anatomia e química, por exemplo. E, como a maioria dos internos não tinha qualquer parente ou quem zelasse por eles, eram registrados como indigentes. O "comércio" tornou-se uma fonte de lucros para as diversas administrações do local. Até 1980, estima-se que 1.853 corpos foram comercializados com cerca de 17 centros acadêmicos diferentes, além de órgãos e ossos. Um montante de R$600.000,00 é estimado como tendo sido oriundo dessa movimentação.

Presos políticos
Durante os governos militares, o local foi usado como depósito para presos políticos. Muitos dos supostos envolvidos com atividades subversivas foram diagnosticados como loucos e enviados para o hospício em Barbacena. Estas pessoas obviamente não eram doentes mentais, mas sim, perseguidos políticos. O hospício serviu como uma espécie de prisão não declarada para os opositores dos regimes militares.

Transporte
Os internos chegavam ao local via trem, geralmente transportados no último vagão, que era solto e alocado aos fundos do hospício. O vagão ganhou o apelido de "trem de doido" pelos mineiros. A viagem era sem volta: a maior parte dos internos jamais recebia alta.

http://ulbra-to.br/encena/uploads/holocausto-2.jpg
Muitos dos internos eram presos políticos do regime militar.
Depoimento
Raramente visitantes externos iam até o local. Um destes visitantes foi o doutor Wellerson Durães de Alkmin, de 59 anos, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. Ele visitou o local em 1975, e relata sua experiência com as seguintes palavras: ""Eu era estudante do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Belo Horizonte, quando fui fazer uma visita à Colônia 'Zoológica' de Barbacena. Tinha 23 anos e foi um grande choque encontrar, no meio daquelas pessoas, uma menina de 12 anos atendida no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Ela estava lá numa cela, e o que me separava dela não eram somente grades. O frio daquele maio cortava sua pele sem agasalho. A metáfora que tenho sobre aquele dia é daqueles ônibus escolares que foram fazer uma visita ao zoológico, só que não era tão divertido, e nem a gente era tão criança assim. Fiquei muito impactado e, na volta, chorei diante do que vi."

Lições e Sequelas

http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2013/06/110_1458-barbacena2.jpg
Foto de internos do Hospital Colônia, amontoados em um pátio.
O tratamento dispensado no Hospital Colônia de Barbacena é reflexo do modelo europeu baseado nos ideais de Eugenia ("limpeza social"), aplicados especialmente durante o século XIX e a primeira metade do século XX, tendo sido ainda utilizado em escalas menores após esse período. A política brasileira de tratamento psiquiátrico demonstrou ser mais uma ação ideológica, política e comercial do que humana. Os hospícios no Brasil são historicamente lugares de reclusão, e não de tratamento. Os pacientes considerados "normais" já são submetidos a um tratamento desumano nos hospitais, logo, podemos imaginar em que condições são submetidos os pacientes com alterações mentais. Barbacena ficou conhecida como a "cidade dos loucos", e o estigma dos doentes mentais não é algo que terminou com o fechamento do Hospital Colônia. Até os dias atuais, são frequentes os relatos de maus tratos e barbaridades cometidas contra pessoas sem voz e sem consciência, nos locais mais remotos do Brasil. Estas prisões se escondem sob o nome de instituições terapêuticas, mas elas mesmas fazem parte da enorme doença que é muito pior do que aquelas mentais: a doença moral que acomete nossa medicina atual. Infelizmente, ainda existem inúmeras instituições que atuam como o Hospital Colônia atuou.


Referências:
Sobre o caso, vale a pena ler o livro "Holocausto Brasileiro", da jornalista Daniela Arbex.

Um dos terroristas do Setembro Negro, na sacada do prédio onde estavam os atletas israelenses em Munique.
O ano de 1972 entrou para a História por conta da maior catástrofe terrorista em jogos olímpicos. As Olimpíadas de Munique, na Alemanha Ocidental, seriam palco para o mais marcante ataque terrorista da organização extremista pró Palestina chamada Setembro Negro. Os resultados desse ataque desencadearam uma série de retaliações por parte do governo israelense, o que fez eclodir vários outros ataques terroristas não apenas do Setembro Negro, mas de vários outros grupos.

As Olimpíadas de 1972
Os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, foram os primeiros jogos olímpicos realizados na Alemanha desde o fim do regime Nazista. A participação da delegação olímpica israelense tinha um duplo significado: o primeiro, político e ideológico, como uma amostra da recuperação pós Nazismo, elevando a moral israelense; o segundo, a reaproximação entre Alemanha e Israel. Estas Olimpíadas, inicialmente, tinham como objetivo publicitário promover a cultura de paz.

Setembro Negro
Militantes palestinos Fedayin. Vários destes militantes participariam do Setembro Negro.
Chamado em Árabe de Munaẓẓamat Aylūl al-Aswad (na escrita original, منظمة أيلول الأسود ), o grupo terrorista Setembro Negro era composto por membros da organização Fatah. Criado em 1970, era um braço da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) na luta contra o exército da Jordânia, em retaliação às ações do rei jordaniano Hussein contra a tentativa de golpe de estado dos Fedayin, militantes palestinos, deportando milhares de palestinos em conflitos que causaram cerca de 10.000 mortes. O Setembro Negro foi formado por militantes do Fatah e da As-Sa'iqa.

Os maiores atentados do Setembro
Os principais atos terroristas do grupo foram: o sequestro e assassinato de 11 atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972; a tentativa de matar o embaixador da Jordânia em Londres, em 1971; a sabotagem de uma usina elétrica na Alemanha Ocidental e uma fábrica de gás na Holandesa em 1972; o sequestro de um avião belga com destino a Tel Aviv também em 1972 e o atentado à embaixada saudita no Sudão em 1973, causando a morte de três diplomatas, dois norte-americanos e um belga.

Recusa da OLP
Após diversos atentados, a própria Organização pela Libertação da Palestina desmantelou o Setembro Negro, acusando-os de prejudicar a causa palestina trazendo uma imagem negativa aos militantes dos demais grupos ligados à causa. Entretanto, o grupo continuou agindo e permanece ativo até hoje, listado como uma organização terrorista pela lista oficial da União Europeia.

Massacre de Munique 
http://www.thetimes.co.uk/tto/multimedia/archive/00318/14806213_munich_318341c.jpg
Caixões dos atletas israelenses mortos, em procissão para seu enterro.
 Em 5 de Setembro de 1972, às 4 da manhã, oito membros invadiram o dormitório da delegação israelense. No ato da invasão, dois atletas foram mortos, após ferir alguns terroristas e nocautear um deles. Nove atletas foram tomados como reféns. Os terroristas exigiam a libertação de vários prisioneiros palestinos por parte do governo de Israel. As autoridades israelenses negaram o pedido, e, como resultado, o ato terminou de forma trágica: cinco dos oito terroristas foram mortos, todos os nove reféns israelenses morreram e um policial alemão foi morto. Os outros três terroristas que sobreviveram e foram presos acabaram sendo soltos depois, por conta de um sequestro em um voo alemão, em troca da libertação dos reféns. 

Mortos 
http://commentisfreewatch.files.wordpress.com/2012/07/11.png
Atletas israelenses mortos no atentado.

Os atletas da delegação israelense mortos foram: Moshe Weinberg e Yossef Romano (mortos ao reagir à invasão); Ze'ev Friedma, David Berger, Yakov Springer, Eliezer Halfin, Yossef Gutfreund, Kehat Shorr, Mark Slavin, Andre Spitzer e Amitzur Shapira (mortos por granadas atiradas pelos terroristas). O policial alemão morto chamava-se Anton Fliegerbauer. Os terroristas mortos chamavam-se Luttif Afif, Yusuf Nazzal, Afif Ahmed Hamid, Khalid Jamal e Ahmed Chic Thaa.

Resposta de Israel
http://img.timeinc.net/time/photoessays/2010/powerful_women/golda_meir.jpg
Golda Meir, primeira ministra israelense da época.
Após o atentado de Munique, as autoridades alemãs criaram a unidade policial especial anti terrorismo chamada GSG - 9 (GSG 9 der Bundespolizei),israelenses tomaram algumas medidas de reação. A primeira ministra israelense da época, Golda Meir, iniciou a operação Cólera de Deus (Wrath of God), onde agentes ligados não oficialmente ao Mossad realizaram operações secretas resultando na morte de diversos líderes da OLP e de grupos ligados ao ataque do Setembro Negro. Por sua vez, tais operações despertaram ainda mais extremismo terrorista, com novos atentados sendo realizados. Dois dos três terroristas foram mortos, nessas operações. O terceiro, Mohammed Oudeh, sobreviveu a um atentado contra sua vida, mas morreu em 3 de Julho de 2010 em Damasco, por falência renal.

Lições e Desafios
Não somente o atentado de Munique, mas todos os outros, sendo executados por grupos paramilitares ou pelas próprias potências mundiais, demonstram o despreparo das relações internacionais cada vez mais evidente. A capacidade diplomática e a resolução pacífica de conflitos torna-se cada vez mais rara e somente uma bonita teoria, enquanto a prática é o derramamento de sangue. Os eternos conflitos entre israelenses e palestinos possuem ramificações milenares e muito complexas, mas certamente a maior culpada pela atual situação é a ONU, que não cumpriu as promessas de criar um Estado para os palestinos e delimitar as fronteiras desse Estado. Sem um Estado reconhecido, a situação palestina se deteriora, causando ataques extremistas, o que incita retaliações violentas de Israel, que, por sua vez, causam ataques ainda piores, formando um círculo que parece interminável. O terrorismo afeta cada um de nós, e deve ser tratado de forma séria e madura, não sendo uma mera questão de extremistas árabes, mas produto da conivência e do apoio das próprias potências que se dizem anti terroristas.


Referências:
About.com

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Todos os direitos autorais reservados - 2014-2015 - Marco Histórico - Editor e escritor: Prof. Jean Augusto Carvalho

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