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Marco Histórico
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Guilherme II e membros da Marinha Imperial.
Uma das figuras mais importantes da História alemã, o Kaiser Wilhelm II (Guilherme II) foi um expoente do militarismo germânico. Seu governo marca um importante período de transição na administração alemã. Wilhelm foi o último imperador alemão e rei da Prússia. 

Origens
Nascido em 27 de Janeiro de 1859 em Berlim, filho do príncipe Frederico Guilherme da Prússia e da princesa Vitória do Reino Unido, foi o primeiro neto da rainha Vitória e seu esposo, Alberto. Como foi o primeiro filho de Frederico, era o segundo na linha de sucessão imperial tanto da Alemanha quanto da Prússia. Wilhelm era parente de grande parte da nobreza europeia de sua época. Por exemplo, era primo do czar da Rússia Nicolau II e do rei Jorge V do Reino Unido. Mas sua relação familiar com estes nobres não parece ter sido das melhores. 

Guilherme II, ainda jovem, em 1874.
Infância e juventude
Guilherme teve um parto difícil, e um defeito físico sempre lhe foi presente: o braço esquerdo era 15 centímetros menor que o braço direito. Ao que parece, a sequela definiu certos traços psicológicos de Wilhelm. Já aos seis anos, Guilherme foi influenciado para a vida militar, principalmente por seu professor Georg Hinzpeter. Foi educado em Kassel, e depois cursou a Universidade de Bonn. Se a inteligência se fez presente desde cedo na vida do monarca, o gênio indomável também marcou seu lugar ainda em sua juventude. Guilherme era conhecido por seu temperamento difícil e sua indisciplina. Herdeiro dos Hohenzollern, viveu desde cedo no ambiente da nobreza aristocrática. A cultura prussiana, extremamente militarista, definiu o caráter de liderança do pequeno príncipe. Admirava principalmente o pai, figura importante da unificação alemã, e o avô, Guilherme I. Wilhelm tinha uma grave antipatia pelos britânicos. Otto von Bismarck exerceu certo fascínio em sua personalidade e acabou por projetar o jovem monarca contra os próprios pais, e, diante da morte do pai, Wilhelm passou a culpar o médico inglês que dele tratou, bem como desconsiderar sua mãe, igualmente inglesa. 

Titio Otto
Já em sua juventude, Wilhelm teve grande contato com Otto von Bismarck, o "pai" político da Alemanha, construindo grande admiração pelo velho comandante. Entretanto, essa admiração não parece ter sido recíproca, já que Bismarck desconsiderava as ações de Wilhelm e desejava mantê-lo "estacionado" enquanto prolongava o próprio poder. Isso acabou por criar uma inimizade entre ambos. Agora, o chanceler da Alemanha e o herdeiro ao trono não podiam mais se considerar como aliados políticos. É correto dizer que Wilhelm exerceu uma ação de opositor do governo de Otto durante esse período.


Jogo de Xadrez
Durante a década de 1880, Bismarck ampliou sua influência no Reichstag alemão. O Kartell, a coligação entre o Partido Conservador e o Partido Nacional Liberal, garantia a aprovação dos projetos de Bismarck no parlamento. As medidas anti-socialistas de Bismarck provocaram a reação de Guilherme, interessado nas questões sociais da Alemanha e da Prússia. Wilhelm desejava uma política mais abrangente em relação aos trabalhadores, especialmente os do ramo da mineração, algo que Bismarck, fanático anti-socialista, evitava. o Reichstag tornou-se um palco de luta entre os dois gigantes. Bismarck desejava causar uma precipitação dos socialistas, assim, conseguindo um pretexto para eliminá-los, mas Wilhelm afirmou que não iria iniciar seu reinado com um banho de sangue. Segundo ele, seu governo deveria ser para toda a multidão, e isso incluía os socialistas. Bismarck tentou isolar Wilhelm politicamente, mas isso não foi possível. O Kartell se desmanchou e o kaiser ampliou sua influência no Reichstag. É fato que Bismarck regulamentou os primeiros direitos dos trabalhadores alemães, mas, ao decidir não progredir nos avanços sociais trabalhistas por simples anti-socialismo, abriu caminho para sua oposição. Bismarck tornara-se um dinossauro político e seria questão de tempo até que seu maior opositor. Wilhelm, o superasse.
Guilherme II acompanhado de  Fernando I da Bulgária, o rei Manuel II de Portugal, o rei Jorge I da Grécia, o rei Alberto I da Bélgica, o rei Afonso XIII de Espanha, o rei Jorge V e o rei Frederico VIII da Dinamarca.

Supremacia
Em 1890, Bismarck se demite. Leo von Caprivi o substitui como chanceler. Depois, este foi substituído por Chlodwig em 1894. Em 1900, finalmente Guilherme coloca um homem seu para preencher o cargo: Bernhard von Bülow. Bismarck havia criado uma estabilidade entre Alemanha, França, Inglaterra e Rússia, e manter isso seria o principal desafio de Wilhelm. Ele mesmo ampliou sua atuação no governo alemão, antes, muito dividida com o chanceler. Agora, o imperador exercia mais influência direta. Nunca mais um chanceler exerceria tanta influência num governo como Otto havia exercido. Agora, o kaiser era a principal figura política.

Montado em seu cavalo, o imperador, em Potsdam.

Marinha
Wilhelm concentrou esforços em criar uma marinha alemã capaz de rivalizar com a marinha britânica. Assim, desejava tornar do império alemão uma potência mundial, e não apenas continental. A leitura do tratado "A influência do Poder Marítimo na História", do almirante Alfred Thayer, tornou-se obrigatória para todos os líderes militares. As ambições marítimas e imperialistas de Guilherme logo criaram um estado de alerta nas outras potências da Europa. Os britânicos começaram a enxergar as pretensões marítimas dele como um perigo à quase que hegemonia da Coroa nos mares.

Kaiser Guilherme e seus principais generais.
Ciências e Arte
Guilherme foi um forte patrocinador das Ciências e das mais diversas áreas da Arte. Expandiu um modelo de educação pública e um sistema de seguridade social. Chegou a criar a SociedadeKaiser Guilherme, financiada com dinheiro do Estado e investidores privados, cujo objetivo era realizar pesquisas científicas pioneiras em diversos setores. Incentivou uma reformulação do sistema educacional prussiano, que, na época, era extremamente engessado. Queria dar-lhe um caráter mais progressista. Se por um lado os investimentos de Guilherme produziram um avanço nas Artes e nas Ciências de sua nação, por outro lado criaram um cenário de muito pouca autonomia para os centros educacionais, que foram muito influenciados pelo kaiser. 

Espírito e genialidade
O kaiser Guilherme era de um espírito agressivo e tempestuoso. Era notoriamente anti semita, demonstrando desprezo pela influência judaica na sociedade alemã, que, segundo ele, era exageradamente abusiva. Nesse sentido, a política de Guilherme foi muito prejudicada: se ele via os judeus como seus inimigos, muitos judeus tinham apreço pela figura do imperador, que perdera um importante apoio que lhe poderia ter sido muito útil. O sentimento anti-judaico de Guilherme permitiu a atmosfera que criaria a figura de Hitler. Guilherme criou uma inimizade com os setores da Esquerda, que considerava (e de fato eram) opositores seus. Criticou a política de Bismarck, mas acabou seguindo muito dessa mesma forma de governar. 

Geopolítica
Guilherme levou em frente uma política estrangeira agressiva e levada adiante mais por seus impulsos do que por sua ponderação. Entretanto, seus atos não podem ser considerados como unicamente seus: como todo governante, havia um grupo que lhe influenciava as ações. Basicamente, onde houvesse uma ação anti britânica, Guilherme estaria ali para apoiar, e isso acabou por deteriorar as já frágeis relações germano-britânicas. Foi particularmente contrário à influência europeia na China, mas não por bondade, e sim por desejar limitar o imperialismo das potências rivais. As colônias alemãs na África receberam maior atenção. Todas elas, entretanto, seriam perdidas após a Primeira Guerra, o que fez disso um investimento sem retornos, pois poucas delas proporcionaram lucro suficiente que justificasse os investimentos. Nos assuntos internos, conseguiu um importante trunfo ao casar sua filha Vitória Luísa com o duque de Brunsvique, em 1913, resolvendo uma antiga inimizade entre os Hohenzollern (família real de onde Guilherme viera) e o Reino de Hanôver, que havia sido anexado pelos prussianos em 1866. Isso trouxe uma estabilidade interna que não existia nas políticas internacionais feitas pelo kaiser. 
Kaiser em revista às tropas imperiais.

Boxers
Entretanto, sua ação mais desastrosa foi a participação alemã na Guerra dos Boxers, uma revolta popular chinesa contra os estrangeiros no país. Participando da coligação entre Grã-Bretanha, Estados Unidos, França, Rússia e Japão, Guilherme enviou suas tropas imperiais para intervir na China. Entretanto, quando chegaram ao país oriental, Pequim já havia sido conquistada e a batalha estava praticamente concluída. Os discursos proferidos por Guilherme, enaltecendo o exército alemão e comparando-os aos hunos, cuja impiedade deveria ser sempre presente, incitaram a inimizade tanto dos chineses quanto dos demais países da coligação. 

Problemas com a frança
Quando Guilherme visitou o Marrocos, em 1905, fez declarações favoráveis à independência do país. Ora, Marrocos era uma célebre colônia francesa, e tais declarações acabaram por deteriorar as relações entre as duas nações. Desse desconforto surgiu a Conferência de Algeciras, artifício que acabou isolando a Alemanha de modo ainda mais grave dentro do continente europeu. 

Má publicidade
A imprensa exerce papel fundamental nos governos do mundo, e isso não é de hoje. Quando Guilherme deu uma entrevista ao Daily Telegraph, em 1908, suas afirmações contundentes acabaram prejudicando ainda mais a opinião internacional sobre a Alemanha. Dentro do próprio país, grande parte do povo pedia a renúncia de Guilherme, o que não aconteceu. Seu chanceler, Bülow, foi sumariamente demitido do cargo, já que não interveio em benefício do kaiser nem editou a entrevista para a devida publicação na Alemanha. Os britânicos usariam bem esta imagem como propaganda de guerra anti-alemã, onde o kaiser aparecia sempre como um monstro.
Guilherme II

Homens ao mar
Com a nomeação do oficial Alfred von Tirpitz, os planos de expansão marítima de Guilherme começavam a tomar forma. O objetivo era aumentar a presença alemã na África do Sul e forçar a Inglaterra no cenário internacional de modo a favorecer os alemães, concentrando grandes grotas no Mar do Norte, rivalizando, assim, com o poderio naval britânico. Entre 1897 e 1900, Tirpitz teve todo o apoio do kaiser. Entretanto, os esforços militares para a Marinha acabaram sacrificando outros setores da economia alemã. Guilherme criou o Marine-Kabinett em 1889, sendo Gustav von Senden-Bibran nomeado seu primeiro chefe. Um canal em Kiel foi feito em 1895, permitindo manobras mais rápidas entre o Mar do Norte e o Báltico. A frota alemã foi consideravelmente ampliada, mas não chegou a rivalizar com a britânica.  

Com as mãos nos olhos, o imperador Guilherme II, inspecionando as tropas, durante a Primeira Guerra Mundial.

Primeira Grande Guerra
Guilherme não veria apenas a derrota da guerra, mas assistiria também à perda do próprio poder. Durante a Primeira Guerra, a participação de Guilherme foi muito reduzida, e a Alemanha tornou-se, de fato, uma ditadura militarista chefiada por Erich Ludendorff. Guilherme já não era mais capaz de conduzir a guerra e as questões externas e internas. Se, em época de relativa tranquilidade internacional, as decisões do kaiser mostravam-se muito exageradas, a pressão de um conflito de proporções jamais vistas acabou por prejudicar ainda mais o senso do imperador. Guilherme, primeiro, foi forçado a aceitar Michaelis como chanceler, pressionado por Erich. Em novembro de 1918 a popularidade do kaiser havia despencado, e o presidente norte-americano, já no fim da guerra, declarou que ele não poderia participar das negociações de paz. Guilherme também contrariou a mortífera gripe espanhola, mas resistiu à doença. A Primeira Guerra havia selado seu caminho de saída do trono.

Guilherme e sua esposa, a imperatriz Hermine.

O último kaiser
Quando estava na Bélgica, o kaiser foi surpreendido por revoltas em Berlim e outros centros do império, no fim do ano de 1918. Com a Revolução Alemã, o kaiser ficou indeciso entre abdicar do trono ou permanecer no poder, pois tinha as esperanças de ao menos conservar o trono da Prússia. Quando ficou claro que ele não teria apoio do exército, Guilherme abdicou, aconselhado por Hindenburg. Ironicamente, Hindenburg era um monarquista fervoroso. Guilherme foi então levado para o exílio nos Países Baixos, uma nação neutra. No Tratado de Versalhes foi exposto o desdém internacional pelo antigo kaiser: o artigo 227 condenava Guilherme por "ofender a moral internacional e a santidade dos tratados entre os povos". De fato, os vencedores queriam a cabeça de Guilherme, mas ele não foi extraditado. Guilherme morou então em Amerongen, e no dia 28 de Novembro de 1918 publicou sua abdicação oficial ao trono da Alemanha e da Prússia. Depois, mudou-se para Doorn, em 1920. Ali, ele passaria o restante de sua vida. Com a criação da República de Weimar, Guilherme teve permissão para retomar a maior parte de seus bens deixados na Alemanha. 

O kaiser e seu bisneto

Exílio
Guilherme publicou sua autobiografia em 1922, justificando a maior parte de seus atos e dizendo-se inocente quanto a explosão da Primeira Grande Guerra. Acabou despertando um interesse por arqueologia, chegando a passar um tempo na Grécia. Essa seria sua motivação durante seus últimos anos. Outras coisas que distraíam o abandonado imperador eram a caça e os projetos para grandes navegações e edifícios. Seu aspecto imaginativo e visionário nunca foi perdido. Com a subida do Partido Nazista em 1930, Guilherme tinha a esperança de ver o restabelecimento da monarquia, mas obviamente isso não aconteceu. Hitler nutriu total desdém pelo antigo kaiser que, segundo ele, havia sido o responsável pela humilhação alemã na Primeira Guerra. Assim, Guilherme acabou nutrindo desgosto pelo nazismo. Quando Hitler obteve os primeiros e rápidos sucessos da Segunda Guerra, Guilherme se animou, e enviou um telegrama ao "führer", dizendo: "parabéns, venceste usando as minhas tropas". Morreu em Doorn, vítima de embolia pulmonar, em 3 de Junho de 1941, com oitenta e cinco anos. Hitler desejava enterrá-lo em Berlim, pois, apesar da inimizade entre os dois, não deixava de reconhecer o último kaiser como uma figura icônica da Alemanha. Entretanto, os desejos de Guilherme foram respeitados, pois ele não desejava ser enterrado em solo alemão enquanto a monarquia não fosse restaurada.
Wilhelm II e seus dois netos.

Injustiça seja feita
Wilhelm (Guilherme II) foi uma figura contraditória da política mundial. Ícone da Alemanha, viveu o momento de celebração por seu povo, que o via como um reformador social, e também experimentou o desdém do mesmo povo que o havia acolhido. Hábil militar, porém péssimo diplomata e negociador, Guilherme pode muito bem ter sido, em grande parte, vítima das maquinações de seus opositores e de conselheiros não muito afeitos a ele. Entretanto, suas próprias ações acabaram o prejudicando, colocando-o em situação de isolamento político junto com a Alemanha. Guilherme não foi um sucesso, e muito menos um fracasso: ampliou o poder alemão além-mar, aumentou os efetivos militares, aprimorou a cultura nacional e investiu nas Artes, na educação e nas Ciências. Se a maior parte de suas ações internacionais foram desastrosas, é fato que ele conseguiu rivalizar com a maior potência da época, o Império Britânico. A Alemanha deveu muito ao seu último imperador e teve o caminho para seu desenvolvimento industrial muito aprimorado por Guilherme. 

Fotos: KraljAleksandar
Mikhail Petrovich Kulakov, um dos maiores ativistas pela liberdade religiosa na União Soviética.
Mikhail Petrovich Kulakov foi um importante missionário cristão e ativista pelos direitos de liberdade civil e religiosa dentro da União Soviética. Suas ações contribuíram para uma melhor relação entre as diversas religiões e o poder soviético. Participou de diversos eventos dentro e fora da URSS, contribuindo para diálogos mais pacíficos entre EUA e URSS em questões importantes como o desarmamento e políticas de paz na corrida nuclear. 

Pais e filhos

O pai de Mikhail, pastor adventista, havia sido preso e sentenciado a uma pena de dez anos de trabalhos forçados em um campo na República de Komi, a 950 km da cidade de Ivanovo, onde Mikhail havia se formado em Artes. Mikhail, nascido em 29 de Março de 1927, sua mãe e seus dois irmãos se mudaram para Daugavpils, na Letônia. Ali, Mikhail lecionou Artes para turmas do ensino fundamental e do ensino médio durante alguns meses no ano de 1948. Mas sua liberdade duraria pouco.



Stephen

O irmão mais velho de Mikhail, Stephen, que havia servido em uma unidade de engenharia na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial, também havia sido preso e sentenciado a trabalhos forçados. Entre as diversas justificativas inconsistentes, um dos motivos para a prisão era a possível ação dupla de Stephen durante a guerra. Ele havia sido capturado pelos alemães, mas conseguiu escapar e retornar ao seu regimento. As autoridades soviéticas comumente prendiam soldados que eram capturados e conseguiam fugir, tendo-os como espiões a serviço dos alemães.

Mikhail Kulakov, ainda jovem, na década de 1930.
Passeio de Sedã

Naquele mesmo ano, agentes da KGB prenderam Mikhail na escola onde ele lecionava. Acusado de promover “agitações antissoviéticas”, foi levado a bordo de um Moscvich Sedã por dois agentes da KGB, e ele ficou preso quatro dias na cadeia de Daugavpils. Depois, foi levado para a estação de trem de Rezekne e foi levado para o campo corretivo de Ivanovo. Ele foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados.

Prisioneiro

 Mikhail logo caiu na dura realidade de um condenado do regime soviético. Nem todos os prisioneiros eram dissidentes políticos ou religiosos: muitos haviam cometido crimes convencionais como furto, roubo, falsificação ou tráfico, ou crimes mais graves como assassinato e estupro. Mikhail foi colocado com todos estes prisioneiros por um crime “grave” para o Estado soviético: manifestar sua fé publicamente.

Rotina

Mikhail era submetido a uma dura rotina. Primeiro, foi enviado a uma minúscula cela onde permaneceu sozinho. Recebia refeições escarças três vezes ao dia, e não lhe era permitido dormir antes do horário. Durante sua internação, foi submetido a diversas sessões de interrogatório. Apesar de ser comum submeter presos à tortura, Mikhail nunca chegou a ser fisicamente agredido. O ataque era mais psicológico: privado de sono durante muitas horas e com refeições de má qualidade, logo a saúde de Mikhail começou a se deteriorar.

Isolamento

Mikhail não poderia receber visitas de seus familiares ou amigos. Recebia apenas encomendas e cartas de sua mãe (todas submetidas à revista). O mais próximo de uma Bíblia que conseguiu foram algumas páginas soltas do evangelho de João. Certa vez, sua mãe conseguiu enviar a ele uma Bíblia inteira, escondida dentro de um saco de farinha que, por sorte, não foi revistado por completo pelos guardas, que se satisfizeram em acreditar que a farinha era para proteger ovos que estavam colocados em seu interior. Mikhail escondia sua Bíblia em diversos lugares, fazendo um rodízio, colocando-a em um ponto diferente a cada dia.

Arte

O jovem professor de educação artística fazia retratos dos prisioneiros, desenhando-os, e através de um amigo civil da fábrica de tijolos onde os prisioneiros executavam seus trabalhos forçados, enviava clandestinamente estes desenhos aos familiares dos detentos. Como câmeras fotográficas eram proibidas no campo, estes desenhos eram muito úteis para a comunicação entre os detentos e seus parentes, e Mikhail logo ganhou credibilidade dentro do presídio e a amizade de vários detentos.

“Liberdade”

No dia 18 de Março de 1953, treze dias após a morte de Stálin, Mikhail havia recebido sua “liberdade”. Na verdade, após o cumprimento de sua sentença de cinco anos, ele seria retirado do sistema prisional soviético, mas iria direto para um local de “banimento” (grande parte dos ex detentos soviéticos deveria permanecer em um desses locais após o cumprimento de sua sentença): Mirsikul, uma pequena aldeia de pescadores, ao norte do Cazaquistão. Naquela época, para residir em uma cidade dentro de qualquer local da URSS, o cidadão deveria ter a autorização em seu passaporte, com o registro de seu local de domicílio permitido pelas autoridades regionais. Por exemplo, um cidadão não poderia se mudar de Riga para Moscou sem ter as autorizações do governo de Moscou. É como se, para cada cidade que se fosse mudar, fosse necessário obter um passaporte diferente. A “liberdade” de Mikhail foi bem restrita: ele não poderia sair de Mirsikul para nenhuma outra localidade, a não ser com a permissão das autoridades soviéticas.

 Voltando a lecionar

Graças a uma enfermeira que visitava o vilarejo de Mirsikul para verificar a saúde dos banidos, Mikhail conseguiu informações para procurar uma vaga como professor de artes na escola do pequeno vilarejo próximo, chamado de Semiozernoye. Entretanto, para se mudar praquela pequena vila, Mikhail precisava da autorização do chefe de polícia local.

Um quadro

Se já era difícil para um cidadão comum obter licenças para mudar de endereço, imagine o quanto foi difícil para Mikhail, um dissidente político e recém-saído do sistema penal soviético, ainda em banimento. O chefe de polícia local aceitou conceder as permissões para a mudança de Mikhail, em troca de um simples favor: o artista deveria pintar um retrato de Dzerzhinsky, o fundador da KGB, para colocar na parede vazia da delegacia. Para Mikhail, isso não foi nenhum desafio. Ele fez o retrato e obteve suas permissões. Não é irônico que Mikhail obtivesse a chance de voltar a trabalhar e ser mais livre pintando o retrato do fundador do serviço secreto que o havia jogado em uma cadeia por cinco anos?

A esposa

Mikhail logo teve contato com o grupo de adventistas da cidade de Semiozernoye. Uma das mulheres, a senhora Agaphia, reparou nos dons de Mikhail. Ela logo lhe propôs que ele conhecesse sua sobrinha, Anna. Os dois jovens logo se apaixonaram e Mikhail pediu Anna em casamento. No dia 8 de Novembro de 1953, eles celebraram sua união de modo improvisado.

Na riqueza e na pobreza

O jovem casal passou por diversas dificuldades. Mikhail tinha seu trabalho como professor, mas somente isso não era suficiente para sustentar toda a família. Como muitos pastores haviam sido presos, faltavam missionários para realizar visitações e trabalhos evangelísticos. Então, Mikhail começou a viajar por várias partes da URSS, mesmo clandestinamente, para dar assistência aos demais cristãos. Isso dificultou ainda mais o trabalho e os dois chegaram a passar sérias dificuldades materiais. Isso sem contar no risco constante de voltar para a cadeia, já que as atividades religiosas de Mikhail eram tidas como “ofensas ao Estado soviético”. Ele chegou mesmo a ficar quatro dias detido pela KGB durante uma de suas viagens, sem poder dar qualquer notícia à sua esposa, mas voltou são e salvo. Os interrogatórios, perseguições, detenções e revistas seriam constantes na vida de Mikhail, sua esposa e seus filhos, mas ele jamais foi preso novamente. Todas as acusações levantadas contra ele não surtiam efeito.

Mikhail, já idoso, em um dos programas de TV que apresentava.

Filhos
Mikhail e Anna tiveram seis filhos: Evangeline, nascida em 1954; Maria, nascida em 1958; Peter, nascido em 1964; Pavel Mikhailovich Kulakov, em 1955; Michael Mikhailovich Kulakov Jr, nascido em 1959 e Elena Mikhailovna, nascida em 1970. Evangeline tornou-se mestre em Religião pela Universidade de Andrews; Maria é tecnóloga em Farmácia pela Faculdade Técnica Miller-Motte; Peter é mestre em Religião pela Universidade Andrews; Pavel é mestre em Administração pela Universidade Andrews ; Elena é formada em Medicina pela Universidade de Loma Linda e Michael é Ciências Políticas no Columbia Union College.

Abertura política

Durante as décadas de 1970 e 1980, Mikhail desempenhou um papel essencial na reabertura política da URSS. Gradativamente, a liberdade religiosa aumentava dentro da União Soviética, mas a maior parte das atividades ainda era feita de modo clandestino. Ele participou de diversos eventos religiosos dentro e fora da URSS. Em Junho de 1977, participou da Conferência Mundial dos Líderes Religiosos pela Paz Duradoura, Desarmamento e Relações Justas entre as Nações. Em 1982, ele foi convidado para tomar parte na Conferência Mundial dos Trabalhadores Religiosos para tratar de assuntos relativos à paz nuclear, em Moscou. Em 1978, participou de uma reunião de representantes de diversas religiões em Praga, na República Tcheca, pelo Movimento Cristão pela Paz. Em 1983, ele participou desta mesma conferência, em Uppsala, na Suécia. Participou ainda de uma conferência de movimentos religiosos no Japão, ainda na década de 1980.

Mikhail, na época em que atuou como presidente da IASD na Rússia.

Diplomacia

No fim dos anos 1980, as relações amistosas entre URSS e EUA se intensificaram. Mikhail foi convidado para participar como representante religioso da Conferência de relações EUA-União Soviética de Chautauqua, no Estado de Nova York, em Agosto de 1987. Mikhail, mesmo tendo sido vítima da repressão soviética, nunca deixou de amar e colaborar com seu país: em Outubro de 1987 ele participou do Fundo Governamental para as Crianças Soviéticas, e ajudou na arrecadação de recursos para o fundo, juntamente com seu representante, Albert Likhanov.

Ronald Reagan e Gorbachev. A maior aproximação entre as duas potências diminuiu
a tensão de conflitos nucleares.

União religiosa

Em 26 de Setembro de 1990, pouco antes da queda da URSS, Mikhail participou de uma conferência dos diversos grupos religiosos da União Soviética junto ao Soviete Supremo da URSS. Um dos líderes presentes foi o chefe da Igreja Ortodoxa Russa, o então Alexei II. O objetivo do encontro era promover uma nova legislação para os religiosos, permitindo a liberdade de crença e de exercício e manifestação pública da fé. Mikhail encontrou-se pessoalmente com então presidente da URSS, Gorbachev, no Kremlin, e debateu com ele a questão da necessidade de maior liberdade de crença no país. Gorbachev procurava o apoio dos líderes religiosos para seu governo, e diversos pontos requisitados foram atendidos.

Patriarca Alexei II. Mikhail participou com ele de um encontro com o Soviete Supremo em 1990.
A união das diferentes ramificações cristãs foi essencial para a maior liberdade religiosa na URSS.

Liberdade e fé
Mikhail participou ativamente de diversos eventos pela liberdade religiosa não só dentro da União Soviética, mas em todo o mundo. Ele foi o responsável pela criação da filial russa da Associação Internacional para a Liberdade Religiosa. Foi nomeado como Secretário Geral da mesma instituição e Representante da Câmara Pública do Presidente Russo, de 1993 a 1995. Junto com o padre Alexander Borisov, fundou a Sociedade Bíblica Russa.

Kulakov Jr. e as primeiras tiragens do Novo Testamento em Russo moderno.
O filho de Mikhail terminou o trabalho iniciado por seu pai.

Mais triunfos
Em 1922, Mikhail retirou-se do cargo de Líder da Igreja Adventista do Sétimo Dia na Rússia, e se dedicou à tradução da Bíblia Sagrada para o Russo moderno. Criou o Instituto para a Tradução da Bíblia, cujo objetivo era completar o trabalho de tradução do livro sagrado. Diversos líderes de outros ramos cristãos participaram de seu projeto. Em Abril de 2000, o Novo Testamento havia sido concluído e a primeira edição para o Russo moderno foi publicada. A tiragem de 12.500 cópias foi rapidamente esgotada e outra impressão teve de ser feita. Em Agosto de 2001, ele recebeu um segundo doutorado honorário em Teologia por sua contribuição na tradução da Bíblia.

À esquerda, o filho de Mikhail, Kulakov Jr., e o pastor Dale Galusha, com o Novo Testamento
traduzido para o Russo moderno.
Falecimento
Mikhail viveu os últimos anos de sua vida na Califórnia, nos EUA, mas nunca deixou de visitar a Rússia. Faleceu em 10 de Fevereiro de 2010, em sua casa, em Highland, na Califórnia. No mesmo dia de sua morte, o Pentateuco que havia sido traduzido era impresso e distribuído na Rússia, em Zaoksky. Ele foi enterrado no cemitério de Glenwood, em Washington, DC.

Legado e contribuições

Mikhail sofreu a intensa perseguição antirreligiosa promovida pelos anos mais fortes do regime soviético. Foi um dos vários presos políticos detidos por questões de fé. Passou grande parte de sua juventude detido ou em banimento. Mesmo após sua liberdade, viveu sempre perseguido e diversas vezes submetido a interrogatórios. Mikhail nunca chegou a sofrer violência física, e vários oficiais com os quais teve contato converteram-se ao Cristianismo. Mikhail Kulakov fez parte de uma heroica resistência pacífica contra os abusos do poder soviético. Apesar de ter sido perseguido, nunca procurou agir contra o seu país. Trabalhava em prol de seu povo e procurou a reconciliação com o regime soviético, mostrando que não só os adventistas do sétimo dia, mas todos os cristãos da URSS estavam empenhados em fazer de seu país um lugar melhor. A atual liberdade religiosa na Rússia e em diversas partes do mundo é, em grande parte, herança de homens e mulheres como Kulakov, que devotaram suas vidas por seus ideais e por aquilo que acreditavam. O trabalho de Mikhail não favoreceu apenas a Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas todas as denominações cristãs da União Soviética, e até mesmo as outras religiões da Federação. 


O Exército Republicano Irlandês, mais conhecido como IRA (Irish Republican Army), é uma organização paramilitar famosa por seus atentados terroristas. O IRA foi a peça fundamental de combate dos irlandeses por sua independência em relação à Grã-Bretanha, especialmente na Guerra Irlandesa de Independência, de 1919 a 1921. Majoritariamente ligada a atos terroristas e conflitos, a história do IRA envolve-se muito mais com questões políticas e administrativas.

O IRA

Em 27 de Outubro de 1917, uma convenção em Dublin reuniu membros do antigo Voluntários Irlandeses. Organizada pelo partido irlandês Sinn Féin, reuniu aqueles que formariam o IRA. Estimava-se que houvesse entre 162 e 390 grupos de voluntários, subsequentemente mobilizados para o IRA. No dia anterior, Éamon de Valera havia sido eleito presidente do Sinn Féin, que, junto com Cathal Brugha, reorganizaria os voluntários.

Bases de um caminho

O objetivo central do IRA era conduzir a luta armada contra a dominação da Grã-Bretanha e garantir a total emancipação da Irlanda. Em 1918, um governo autônomo foi preparado, tendo como presidente De Valera, seguido por um executivo nacional com membros eleitos.

Compromisso

Os representantes do Sinn Féin eleitos em 1918 se comprometeram a não participar do parlamento em Westminster, submetido à Grã-Bretanha, mas sim em formar uma organização política independente. Essa promessa marcava bem o caráter enérgico de independência irlandesa do movimento. 


Divergência

A organização do IRA manteve-se muito independente do partido Sinn Féin. Os membros do IRA submetiam-se à autoridade interna do grupo, e não ao governo. Vários fatores levaram a essa fragmentação, como diferenças ideológicas, objetivos diferentes para a Irlanda e meios divergentes para alcançar a independência do país. Enquanto o Sinn Féin tomava ações pelas vias políticas, o IRA defendia uma ação mais direta e violenta.
Cartaz de recrutamento do IRA.


Emboscada

No dia 21 de Janeiro de 1919, liderados por Séamus Robinson, Dan Bree, Séan Treacy e Séan Hogan, os membros da 3ª Brigada Tipperary realizaram um atentado que resultou na morte de James McDonnell e Patrick O’Connel, membros do novo governo irregular da Irlanda. O evento ficou conhecido como a “Emboscada Soloheadbeg”.

Reconciliação

Um acordo foi feito entre os representantes do governo irlandês e os líderes do IRA no dia 31 de Janeiro de 1919. Assim, o IRA foi submetido como ferramenta do movimento político Sinn Féin. Brugha propôs que os membros do IRA prestassem juramento ao governo, e em 1920 o juramento foi feito.

Membros do IRA em Belfast.

Primeira fase

Através de guerrilhas, o IRA empreendeu uma série de ataques contra as forças reais britânicas na Irlanda, de 1919 a 1921. Três fases principais dividiram a campanha: a primeira fase, uma reorganização dos voluntários do IRA como um exército de guerrilha (cerca de 100.000 homens, dos quais apenas 15.000 se mobilizaram). Nesta fase, 400 postos militares britânicos foram queimados em Abril de 1920.

Voluntários do IRA que serviram na guerra de independência irlandesa de 1919 a 1921.

Segunda Fase

A segunda fase da Guerra de Independência Irlandesa durou de Janeiro a Julho de 1920. Uma série de ataques a postos policiais tomou conta da Irlanda: 16 foram destruídos e 29 danificados. Os britânicos declararam lei marcial em diversas partes da Irlanda, permitindo a intervenção direta e a execução de membros do IRA sem julgamento prévio. Os britânicos enviaram a tropa BLACK e Tans e a Auxiliary Division para a Irlanda.

Terceira Fase

A terceira e última fase foi de Agosto de 1920 a Julho de 1921. Os membros do IRA enfrentaram forças britânicas ainda mais superiores. Sendo assim, evitaram combates diretos e realizaram emboscadas. O IRA se dividiu em unidades chamadas de “Colunas Voadoras” (Flying Columms) com cerca de 20 membros cada. As principais lutas aconteceram em Dublin e na província de Munster. Os guerrilheiros obtiveram numerosas vitórias sobre os britânicos.

Pressão

A partir de Julho de 1921, as ações do IRA tornaram-se cada vez mais difíceis por dois fatores: falta de armas e munição e o número cada vez maior de tropas britânicas. O grupo dispunha de somente 3000 rifles, a maior parte tomada dos próprios britânicos, mas um número superior de escopetas e pistolas. Algumas metralhadoras Thompson foram traficadas dos EUA, mas a maior parte delas (450) foi interceptada pelas autoridades norte-americanas, e o restante chegou somente depois do fim da guerra.

Perdas
Aproximadamente 5.000 membros do IRA foram presos e 500 foram mortos na Guerra de Independência Irlandesa. De 15.000 homens mobilizados, restaram entre 2000 e 3000. Em 1921, a guerra foi terminada de modo repentino.
Sábado Sangrento

A violência das tropas britânicas foi tão grande que o próprio rei George V disse que odiava a ideia por trás das tropas atuantes na Irlanda. Em Novembro de 1920, em Dublin, a aconteceu o Sábado Sangrento, onde os membros do IRA mataram 40 pessoas, incluindo nove agentes britânicos. Os britânicos abriram fogo contra uma multidão em um estádio de futebol de Croke Park, matando 14 civis. Os membros do IRA destruíram várias propriedades de realistas que cooperavam com os britânicos  

Católicos x Protestantes

Os militantes do IRA mataram cerca de 70 civis protestantes. Grande parte dos protestantes era historicamente leal à Coroa britânica, o que causou a inimizade contra os membros do IRA.

Consequências

Os britânicos, apesar da superioridade militar, encararam custos altíssimos para manter suas campanhas na Irlanda, o que tornou suas ações insustentáveis. A guerra acirrou inimizades históricas e teve como principal reação o caos social e a estratificação da sociedade irlandesa, dividida inclusive por questões religiosas.

Mulheres do IRA revistam um suspeito. Na parede, os dizeres "Fora Britânicos".

Tratado

O primeiro ministro britânico David Lloyd e os representantes irlandeses assinaram um tratado de paz em 11 de Julho de 1921. A maior parte dos líderes do IRA não confiou no tratado e continuou a recrutar e treinar militantes. O tratado exigia o fim da proclamada República Irlandesa e o retorno da dominação britânica. Essa discordância levaria, mais tarde, à guerra civil irlandesa, onde os favoráveis ao tratado lutaram contra os desfavoráveis. O país foi dividido em dois: Irlanda do Norte e Irlanda do Sul. A Irlanda do Norte voltou a fazer parte do Reino Unido.

De Valera opôs-se ao tratado anglo-irlandês.

Guerra Civil Irlandesa

A divergência logo se transformou em uma guerra civil. Os membros do IRA favoráveis ao tratado tornaram-se no Exército Nacional Irlandês (INA – Irish National Army). O conflito terminou em 1923 com a derrota dos contrários ao tratado que deu origem ao Estado Irlandês Livre (um nome que expressa pouca liberdade, já que tal governo era submetido à Grã-Bretanha). Os grupos atuais do IRA ainda ativos dizem-se herdeiros dos antigos opositores daquilo que consideram como um tratado de traição.



Lições

O IRA atuou como um importante grupo de pressão pela independência da Irlanda. Entretanto, a guerra escalou para algo pior do que irlandeses contra britânicos. Divisões no próprio IRA e entre a população irlandesa criaram conflitos internos. O sonho de criar uma República acabou com o tratado que deu lugar a uma divisão na nação e submeteu o governo irlandês à Coroa britânica. Do fim destas guerras até os dias de hoje, o IRA tornou-se uma organização tida como terrorista, tomando ações esporádicas contra os britânicos, totalmente desligado do governo irlandês. Recentemente, ao menos parte principal do grupo declarou um fim das ações hostis, mas a questão irlandesa ainda não foi completamente resolvida. 
Lawrence, em trajes árabes típicos dos beduínos.
Thomas Edward Lawrence, popularmente conhecido como “Lawrence da Arábia”, foi um arqueólogo e agente secreto britânico que desempenhou um papel fundamental nas campanhas do Oriente Médio durante a Segunda Guerra Mundial. Lawrence liderou grupos tribais árabes em uma insurreição contra o Império Turco Otomano.

Lawrence ainda adolescente, sentado à esquerda, junto com seus irmãos.

Tremadog
Nascido em Tremadog, na província de Wales, em 16 de Agosto de 1888, Edward Lawrence demonstrou um gosto por aventuras e História desde muito cedo. Um dos cinco filhos de Thomas Chapman e Sarah Junner, ele estudou em excelentes escolas que lhe deram ainda mais atração pelas artes e pelas ciências, sobretudo em Arqueologia e estudos orientais. Aos 15 anos de idade, Lawrence e seu amigo Cyril Beeson viajaram de bicicleta por Oxfordshire, Berkshire e Buckinghamshire, visitando diversas igrejas, museus, monumentos e antiguidades. Os dois amigos também viajaram de bicicleta para a França, fazendo anotações e observando diversos castelos medievais.    

Lawrence em seu uniforme de oficial do exército britânico.


Hogarth e Woolley
De 1907 a 1910 Lawrence estudou História no Jesus College, em Oxford. Em 1909 ele fez uma caminhada de três meses pela Síria, na época dominada pelo império otomano, percorrendo 1600km a pé. Com o trabalho intitulado The influence of the Crusades on European Military Architecture – to the end of the 12th century (A influência das Cruzadas na Arquitetura Militar Europeia – até o fim do século XII). Junto com D.G. Hogarth e Leonard Woolley, a serviço do Museu Britânico, participou de diversas escavações arqueológicas pelo Oriente Médio. Lawrence publicou diversos trabalhos em Grego antigo, Francês e Árabe.


Agentes secretos
Em 1911, Lawrence viajou para a cidade de Beirute, e de lá foi para Carquêmis, trabalhando com Leonard Woolley em projetos de arqueologia. Junto com Flinders Petrie, trabalhou em missões arqueológicas em Ammar, no Egito. Lawrence e Woolley foram contratados pelo serviço britânico de inteligência para atuarem como agentes secretos em missões de reconhecimento territorial. A intenção do governo britânico era permitir um trabalho de espionagem em território turco camuflado de “pesquisas arqueológicas”.



Nômades revoltosos
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, os britânicos viram a necessidade vital de organizar missões militares na Arábia contra o Império Turco Otomano, abrindo uma nova frente de batalha. Diversos povos árabes se revoltaram contra o domínio imperial otomano, e Lawrence exerceu um papel decisivo como mediador entre a Grã-Bretanha e estes insurgentes. Junto com os líderes árabes Faisal e Abdullah e suas tropas irregulares, Lawrence orquestrou missões de guerrilha contra tropas otomanas.

Em primeiro plano, o líder árabe Faisal, grande amigo de Lawrence. Lawrence está em segundo plano, e é o segundo da direita para a esquerda.

Tomar Meca, ou não?

O plano original dos líderes árabes consistia em fazer um ataque frontal contra os otomanos na cidade sagrada de Meca. Mas Lawrence, em conjunto com Herbert Garland, convenceu os comandantes árabes a desistir de um choque direto e permitir a entrada das tropas turco-otomanas em seus territórios. Imersos em um deserto e com uma linha demasiadamente prolongada, os inimigos teriam dificuldades em receber suprimentos e manter suas posições, tornando-se presas mais fáceis para ataques de guerrilha. A estratégia foi um sucesso e o movimento insurgente árabe tomou um caráter de guerrilha. Os otomanos foram obrigados a retirar tropas estacionadas na cidade de Meca, e com a estrada de ferro frequentemente atacada, acabavam perdendo tempo cuidando dos danos e tentando resolver outros problemas causados pelos guerrilheiros.

Lawrence em roupas árabes típicas


O porto de Yanbu

Os otomanos movimentaram unidades navais com a ambição de tomar o importante porto de Yanbu, localizado em um ponto estratégico do mar Vermelho, em Dezembro de 1916. Lawrence havia feito uma grande amizade com Faisal, que liderava o Exército Árabe do Norte. Sabendo que seria impossível deter a movimentação naval dos otomanos, Lawrence conseguiu convencer os britânicos a enviar unidades navais para deter os turcos. Com sucesso, os navios turcos foram derrotados e o porto de Yanbu permaneceu intacto.

Aqaba

Lawrence conseguiu organizar diversos grupos insurgentes, como as forças de Auda Abu Tayi (anteriormente empregadas pelos otomanos), e em 1917 coordenou estes grupos para atacar a cidade estratégica de Aqaba. No dia 6 de Julho, após um ataque coordenado por terra, a cidade caiu nas mãos dos insurgentes. Lawrence foi promovido ao posto de major e comandante-em-chefe da Força Expedicionária Egípcia.  O general Sir Edmund Allenby chegou a dizer sobre ele o seguinte: “Eu lhe dei liberdade para agir, e sua cooperação foi marcada pela maior lealdade, e eu nunca tive nada a não ser orgulho de seu trabalho, o qual, de igual modo, foi inestimável. Lawrence é a primavera do movimento árabe e sabe sua linguagem, suas maneiras e sua mentalidade”. Lawrence agora era o principal líder e estrategista do movimento, conselheiro pessoal de Faisal e o agente favorito do general Allenby.

Lawrence e Faisal, um dos mais importantes líderes árabes da revolta contra os otomanos.
À frente, o primeiro ministro britânico, Winston Churchill.
   
Tafileh
No sudoeste do Mar Morto há uma importante região chamada de Tafileh. Nessa localidade aconteceu a mais importante batalha do Oriente Médio durante a Primeira Guerra Mundial. Os turcos tomaram a ofensiva, e a defesa da região coube a Lawrence e Jafar Pasha al-Askari, líder de um exército árabe regular. A batalha não estava favorável para nenhum dos dois lados, e foi especialmente difícil e exigiu muita habilidade por parte dos estrategistas. Os turcos foram vencidos e Tafileh foi mantida sob o controle dos insurgentes. Lawrence recebeu o distintivo de Ordem de Serviço Distinto e foi promovido a tenente coronel.



Reputação e honra
Um caráter é especialmente notado em Lawrence. Diferente da maioria dos agentes ocidentais no oriente, que trabalhavam mais com recompensas financeiras e subornos, sem levar em consideração a cultura, a religião e os costumes dos povos da região, Lawrence imergiu no mundo e na cultura árabe de uma forma profunda. Muitas vezes, usava as roupas características de um chefe árabe. Comia e dormia com eles, muitas vezes em tendas. Os turcos chegaram a fixar uma recompensa de 15 mil libras por sua cabeça, mas nunca precisaram pagar esse valor. Um oficial turco chegou a escrever o seguinte ao seu respeito: “Apesar de colocarmos uma recompensa de 15.000 libras por sua cabeça, nenhum árabe, ainda, sequer tentou traí-lo. o Sharif de Meca, o rei de Hedjaz, deu a ele um status igual ao de seus filhos, e ele é simplesmente como o aço temperado que suporta toda a estrutura de nossas influências na Arábia. Ele é um cavalheiro muito inspirador e aventureiro”. Lawrence foi um dos poucos homens que conquistou o respeito de seus amigos e inimigos.

Damasco
A próxima cidade alvo dos insurgentes foi Damasco. Nas semanas finais da Primeira Guerra, Lawrence deveria capturar a cidade. No dia 1 de Outubro de 1918, a cidade sucumbiu aos atacantes. A vitória não foi recebida por Lawrence, entretanto. Emir Said, governante da cidade, rendeu-se oficialmente ao major Harry Olden, líder da 10ª Brigada Australiana de Cavalaria Leve. Lawrence sabia dos riscos de governos instituídos pelas potências ocidentais naquela região, contrários aos desejos de liberdade daqueles povos. Mas os generais franceses Gouraud e Mariano Goybet colocaram um governante fantoche na região, o que arruinou os desejos de independência árabe que Lawrence tanto ajudou a cultivar.

Lawrence (no carro, de turbante) entrando na cidade de Damasco.

Jogos Políticos

Nos últimos anos da guerra, Lawrence procurou convencer os seus superiores de que garantir a independência das nações árabes era muito interessante para a Grã-Bretanha em termos econômicos e políticos. Mas, apesar das promessas feitas pelas autoridades, um acordo entre França e Bretanha, chamado de Sykes-Picot, instalou governantes fantoches nas regiões “libertadas”. Assim, os árabes que lutaram contra a dominação otomana acabaram caindo nas mãos da exploração imperialista europeia.

No centro, Faisal e Lawrence.

Pós-guerra
Promovido a coronel, Lawrence voltou para a Inglaterra ao fim da guerra. Começou a trabalhar no Escritório Estrangeiro, participando da Conferência de Paz de Paris, como membro da delegação do líder árabe Faisal. Atuou também como conselheiro de Winston Churchill. Lawrence sofreu um acidente de avião em uma viagem ao Egito, que caiu no aeroporto de Roma. O piloto e o copiloto morreram, mas Lawrence sobreviveu, tendo apenas quebrado alguns ossos. Durante sua internação, foi visitado pelo rei Victor Emmanuel III. Em 1919, Lawrence foi fotografado em roupas árabes pelo fotógrafo Thomas, e estas fotos ajudaram a divulgar a imagem pública de Lawrence, que se tornou famoso.

RAF e RTC
Lawrence falsificou documentos e mudou seu nome para John Hume Ross. Tentou ingressar na Royal Air Force (RAF), mas foi impedido por W. E. Johns, que identificou a falsificação dos documentos. Por conta de ordens superiores, Johns foi obrigado a aceitar Lawrence na RAF. Mas em 1923, Lawrence teve de sair novamente da RAF por conta de sua fraude ter sido publicamente exposta. No mesmo ano, ele serviu na Royal Tank Corps (RTC). Em 1925, ele voltou à RAF. De 1926 a 1928, ele serviu em um posto distante na Índia, na época governada pelos britânicos. Ele trabalhou até 1935, terminando sua carreira em Bridlington, na parte Leste de Yorkshire. Lawrence também foi um apaixonado por motociclismo, chegando a adquirir uma clássica Brough Superior SS100, hoje exibida no Museu Nacional de Motos, em Beaulieu, e outra de suas motos está em exposição no Museu Imperial de Guerra em Londres.

Morte
Aos 46 anos, Lawrence morreu em um acidente de moto com sua Brough Superior SS100, em Dorset. Um ponto cego em uma estrada impediu-o de ver dois garotos na pista, e ao desviar deles, Lawrence perdeu o controle da moto, bateu contra as barras de proteção e foi arremessado no ar com o impacto. Faleceu seis dias depois de sua internação, em 19 de Maio de 1935. Um pequeno memorial foi construído no local de seu acidente.
Lawrence em sua moto Brough Superior SS100

Sete Pilares de Sabedoria
Lawrence foi o principal agente ocidental nas ações políticas e militares no Oriente Médio durante a Primeira Guerra Mundial. Ajudou os árabes insurgentes em sua luta contra o Império Otomano. Mas foi além: defendeu a criação de Estados árabes independentes e autônomos. Um dos médicos que o atendeu em seus dias finais, o neurocirurgião Hugh Cairns, realizou uma série de estudos sobre os acidentes de moto fatais e os impactos cranianos como a maior causa de mortes em acidentes desse tipo, o que levou ao uso de capacetes de segurança aprimorados. Lawrence também escreveu muito: centenas de cartas, inúmeros textos e o seu mais famoso livro, Seven Pillars of Wisdom (Sete Pilares da Sabedoria), uma autobiografia onde ele relatou suas ações militares na Arábia. Traduziu A Odisseia, de Homero, para o Inglês, bem como o conto medieval francês chamado The Forest Giant (O Gigante da Floresta). Seu livro e suas traduções lhe renderam um bom dinheiro.

Legado

Lawrence também teve contato e amizade com grandes nomes intelectuais, como Bernard Shaw, Winston Churchill, Noël Coward, Edward Elgar, Robert Graves, Siegfried Sassoon, E. M. Foster, Augustos John, Henry Williamson e John Buchan. Um busto foi erguido em sua homenagem na cripta onde ele está enterrado, na Saint Paul’s Cathedral, em Londres. Lawrence ajudou a formar o espírito necessário para a criação dos modernos Estados árabes, bem como propagou sua cultura em todo o mundo ocidental.  Sua vida virou filme, e Lawrence da Arábia é um dos títulos clássicos mais famosos e assistidos. Sem ele, os eventos no Oriente Médio teriam sido totalmente diferentes. 
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